Voltemos à nossa narrativa: no treino seguinte após a partida, o técnico reúne seus jogadores para falar sobre o resultado. Ele passa cerca de 50 minutos falando sobre a grandeza do clube em que atuam, das oportunidades que a diretoria está dando a todos do time, do peso de um jogo contra o grande rival e, no calor do momento, até insinua que existe falta de vontade de vencer por parte de alguns jogadores. Os argumentos de caráter pessoal e subjetivo, para os jogadores que estavam ouvindo, soa como uma mistura de sermão com discurso motivacional.
Apesar de seu comprometimento e de suas melhores intenções em ajudar os jogadores a extraírem seus potenciais e em ajudar o clube a ser campeão, a forma que o técnico gerenciou seu time não foi a melhor possível. Analisemos ponto a ponto.
Se pararmos para analisar, seu feedback é direcionado ao grupo de forma a generalizar qualquer tipo de cobrança – situação esta que se envolver algum tipo de crítica a um indivíduo, fere uma das regras básicas de qualquer feedback: a de que elogios podem ser concedidos em público, mas críticas devem ser conduzidas em particular.
Vamos continuar analisando a forma como o técnico conduziu o feedback ao grupo de jogadores. É sabido que todo feedback deve se basear em percepções que possam ser comprovadas de forma direta e objetiva com exemplos. Ao basear seu discurso apenas em percepções, sem exemplos, dados ou evidências que sustentem seus argumentos, seu feedback passa a se esvaziar de valor e credibilidade. Suas palavras soam vazias, sem nenhuma aplicação prática. De forma bastante caricata, se assemelha a dizer para o atacante fazer mais gols e dizer ao goleiro para que pare de tomar gols.
Após constatarmos oportunidades de melhoria na liderança e condução do feedback, como o técnico poderia ter gerenciado a situação?
Quando falamos de feedbacks objetivos e assertivos, é muito comum líderes e gestores se queixarem da dificuldade de eliminar vieses subjetivos. A melhor solução encontra-se nos dados. Devemos nos aproveitar das inúmeras tecnologias disponíveis atualmente que possam nos gerar evidências de comportamentos e atitudes.
No contexto do futebol são vários os dados e estatísticas disponíveis. Existem muitas informações sobre o time no geral que vão muito além do placar, como dados de posse de bola, chutes ao gol e também informações individuais de cada atleta. Por exemplo, quantas oportunidades claras de gol cada atacante teve, quantas defesas difíceis o goleiro fez ou quantos desarmes o zagueiro realizou.
Agora, imaginem como seria o feedback do técnico se esses dados fossem utilizados para que cada jogador pudesse melhorar seus indicadores em cada posição que atua. O goleiro poderia avaliar que precisa melhorar o posicionamento em cobranças de falta. O zagueiro, diferente do atacante, precisa treinar mais passes de longa distância. E o atacante, por sua vez, diagnostica que precisa arriscar mais chutes dentro da área.
Vale uma ressalva importante. De nada importam os dados se o líder ou gestor não estiver presente no dia a dia da operação. Seja no chão de loja ou no Gemba de suas fábricas. É a proximidade e relação de confiança que legitimam um bom feedback.
Desta maneira, o feedback se torna uma ferramenta poderosa, capaz de alterar não só comportamentos, mas também placares. Ao mesmo tempo que passa a ser valorizada e desejada não só pelo técnico mas pelos próprios jogadores, ao entender que através do feedback, poderão obter ferramentas para se tornarem atletas melhores.
Em segundo lugar, podemos explorar a importância da liderança situacional na gestão de times e operações. Esse conceito tem ganhado força nos últimos anos e nos aponta que as pessoas possuem estágios de maturidades diferentes dependendo do tempo em cada atividade ou função. Em nossa história do time de futebol, podemos imaginar que um jovem jogador de 17 anos, recém promovido das categorias de base do clube necessita de um apoio técnico de emocional diferente do experiente atacante de 35 anos com passagens por clubes das maiores ligas do futebol mundial. Porém, este tema para ser explorado com a profundidade necessária, merece um artigo dedicado apenas a ele.
Concluímos portanto, que é fundamental que um líder, seja ele um técnico de futebol ou um gestor em qualquer ambiente, utilize o feedback de maneira estratégica e eficaz para impulsionar o desempenho e os resultados da equipe.
Atualmente, indiferente do setor ou do porte da empresa, é possível encontrar lideranças despreparadas no exercício de gestão de pessoas. Ao se mostrarem deficientes em exercer esta responsabilidade, comprometem não apenas os resultados de curto e longo prazo da empresa, mas são responsáveis por impactos pessoais e psicológicos na vida de cada colaborador e em seus níveis de satisfação e felicidade. Dessa forma, encorajamos líderes e gestores a buscarem aperfeiçoamento pessoal e profissional nas competências de gestão de pessoas, com ênfase nas ferramentas e habilidades de feedback.
O feedback, quando munido de ferramentas baseadas em dados e processos torna-se um instrumento valioso na gestão de pessoas e operações.
Mais do que uma formalidade, demonstra um compromisso genuíno em ajudar as pessoas a atingir seu potencial máximo.
Ao adotar essa estratégia, os líderes não apenas promovem um ambiente de desenvolvimento contínuo, mas também estabelecem uma cultura de aprendizado e crescimento que pode levar a resultados mais positivos e consistentes no longo prazo, atuando em aspectos gerenciáveis – as jogadas do jogo de futebol – e exercendo de fato, uma gestão sobre os resultados – o placar do jogo.
Artigo escrito por André Ishimoto e Alexander Emigliozzi.